Conceição e Fátima – Queremos criar uma biblioteca em S. Tomé com o nome da associação - Entrevista
Conceição Nora, de 62 anos, e Fátima Loureiro, de 50, são as duas sobrinhas do Padre Manuel António Marques, à frente da Associação com o nome do pároco.
A mais velha é a presidente, "porque alguém tinha de o ser".
A mais nova, não tem o título, mas partilha todo o trabalho com o mesmo gosto e empenho.
A Associação Padre Manuel António Marques – Associação de Beneficência, Cultural e Cívica, tem sede na Pocariça.
Existe desde 2006, na única paróquia onde o padre exerceu e onde as duas sobrinhas foram criadas.
Depois de uma viagem a S. Tomé e Príncipe onde conheceram a realidade das roças e as carências daquele povo, as duas irmãs decidem formar uma associação de solidariedade.
Para isso, nada melhor que fazê-lo perpetuando o nome de uma pessoa querida da terra e prosseguindo os seus objectivos em vida.
A colectividade tem hoje mais de cem sócios. O sócio número um é o bispo de Coimbra, D. Albino Cleto.
Que tipo de ajuda dão na associação?
FL: Essencialmente roupa, brinquedos, calçado, agasalhos. E porquê a S. Tomenses ou países semelhantes? Porque chegam cá e vêm com uma t-shirt, umas calças e mais nada.
CN: Já nos pediram um saco de viagem com roupa para um rapaz que chegou sem nada. E também para doentes que vêm fazer exames e tratamentos aos Hospitais de Coimbra, que há muitos. Temos mandado pijamas e roupa interior.
Mas sempre a pessoas destes países?
CN:Essencialmente, mas não só. Temos famílias carenciadas, crianças duma escola do norte, uma família também em Mira que já nos pediu ajuda.
Como é que vos chegam esses pedidos?
CN:Em Montemor há uma senhora, que é a assistente social, que tem conhecimento do que nós fazemos. Faz-nos os pedidos directamente e encarrega-se depois de distribuir.
FL: E também fazemos alguns contactos com associações.
CN: Sim, para a delegação "Porta Amiga" de Coimbra, por exemplo. Perguntámos se necessitavam de roupa, de agasalhos e disseram-nos que, como os utentes vão lá tomar banho, o que precisavam mais era de roupa interior. Mandámos camisolas interiores, cuecas, meias.
E como é que conseguem angariar tantos bens?
CN: As pessoas são muito solidárias e vêm trazer. Sabem que nós recebemos e tratamos e vêm voluntariamente.
FL: A varanda da casa da minha irmã está sempre cheia de sacos.
CN: As pessoas já sabem que podem deixar na varanda ou na garagem. Às vezes nem sabemos de quem é.
FL: Também contactámos com uma associação via Internet quando foi no Natal a recolha de meias e mandámos para Lisboa, para os sem-abrigo.
O que é vos move?
CN: É tentar ajudar os outros. Dar um bocadinho de felicidade às pessoas.
FL: E a recompensa é imediata.
CN: Nós damos, mas recebemos mais em alegria. Isso é a maior felicidade.
Recebem todo o tipo de bens...
FL: Calçado, brinquedos, livros.. Aliás, temos outro projecto, uma biblioteca em S. Tomé com o nome da Associação.
Em que pé está esse projecto?
FL: Já fizemos os primeiros contactos com a Cáritas Diocesana de lá para ver se eles tinham uma sala disponível. O que nos foi dito foi que na capital, em S. Tomé, já há uma pequena biblioteca, mas como o senhor da Cáritas sabe que vamos lá entretanto, disse que conversaríamos melhor os termos do protocolo a estabelecer. Seja lá em S. Tomé, seja noutra cidade próxima, queremos fundar lá essa biblioteca com dádivas das pessoas aqui.
É o próximo passo a dar?
FL: Um dos próximos. Ainda ontem o meu marido recebeu uma chamada do presidente do governo regional do Príncipe, que obteve conhecimento que temos material hospitalar. As carências do hospital de lá são muitas, neste momento os doentes estão pelo chão, sem terem colchão. Se nós arranjássemos o material, ele pagava o contentor. De maneira que temos que trabalhar mais. Não vamos cruzar braços ainda.
Em termos de trabalho feito, a vossa actividade é vasta...
CN: Sim, tanto trabalhamos ao nível de beneficência, como na parte cultural. Na parte de beneficência, não estamos só a ajudar S. Tomé, mas também cá. Grupos de estudantes que estão em Montemor, em Coimbra, em Aveiro. A nível cultural, tivemos já um grupo de estudantes de Aveiro e Coimbra que veio participar numa missa dominical em Abril do ano passado. Vieram participar com os cânticos deles, o ofertório à moda de lá. A celebração foi animada por eles e depois houve uma parte de animação e um lanche para todos.
FL: E depois também uma exposição fotográfica que organizámos..
CN: Para mim foi uma surpresa o entusiasmo das pessoas a visitarem a exposição. Não pensava que viesse tanta gente, nem que vibrassem tanto a ver a exposição.
FL: Estamos agora a digitalizar as fotografias para a gravação de um CD, para a angariação de fundos também.
Na lista de projectos há alguma coisa que gostassem muito de fazer e que ainda não seja possível?
CN: Temos um projecto de fotografar os azulejos que algumas casas da Pocariça têm com Sto. António, S. José, Nossa Senhora das Dores e os monumentos. Não são muitos, além da nossa igreja, que é uma jóia por dentro, temos mais duas capelas, temos nichos a Nossa Senhora.
E fazer uma outra exposição de fotografias?
CN: Sim. As fotos da exposição que organizámos eram uma parte do senhor padre Manuel e outra parte emprestada pelas pessoas. Agora esta seria diferente, porque seria um trabalho feito por nós de fotografar e expor. Os azulejos, os monumentos, algumas partes interessantes da arquitectura, de alguma casa mais antiga.
Para chamar a atenção para o património da terra...
CN: É chamar atenção das pessoas. Passamos ao pé das casas e não damos conta. Olhamos, mas não vemos. É chamar a atenção e por outro lado perpetuar aquilo que as aldeias têm e esta então que é tão bonita e é de preservar.
Esta valorização da terra já não está directamente ligada ao nome padre Manuel...
CN: Está, ele tinha muito interesse por isso. Ele escreveu a monografia da freguesia da Pocariça em grande parte para perpetuar, valorizar e dar a conhecer a freguesia. Ele gostava imenso da freguesia e das pessoas da Pocariça.